Parar de buscar e virar a fonte

Hoje assisti a uma aula bem especial, que chegou ao verso final de ensinamento da Bhagavad Gītā. Aquele que, de certa forma, resume tudo:
“Abandone todos os dharmas e tome refúgio somente em Mim.”
Bhagavad Gītā 18.66
Isso não é Kṛṣṇa dizendo a Arjuna para abandonar a vida ou deixar de agir. A Gītā inteira o prepara justamente para agir.
O abandono aqui é muito mais profundo: abandonar a ideia de que esse “eu” limitado é independente, autor absoluto da ação e controlador dos seus frutos.
Continuar fazendo o que precisa ser feito, mas sem carregar nos ombros o peso de controlar o resultado. Agir como instrumento dessa Inteligência que sustenta tudo.
Outra coisa que ficou vem vivo em mim nessa aula foi:
Passamos grande parte da vida buscando fora aquilo que, na verdade, estamos buscando dentro.
Buscamos paz, felicidade, segurança, amor, reconhecimento. E vamos, de alguma forma, negociando com o mundo: quando isso acontecer, eu fico bem. Quando eu tiver aquilo, eu descanso. Quando aquela pessoa me amar, quando me reconhecerem, quando meu trabalho der certo… aí sim.
Só que, se a minha paz depende de algo que chega, ela também desaparece quando aquilo vai embora.
E é aqui que acontece uma virada enorme:
Eu sou a fonte dessa paz.
Não sou alguém que precisa receber plenitude do mundo. Sou alguém que, reconhecendo essa plenitude em si, pode oferecê-la ao mundo.
Percebe o quanto esse entendimento pode mudar a forma como vivemos?
Quanto mais reconheço essa fonte, menos preciso retirar do mundo para me sentir completa. E mais espaço existe para simplesmente oferecer.
Na verdade, talvez nem seja correto dizer “quanto mais conectada à fonte”, porque isso ainda pressupõe que existe uma fonte de um lado e eu do outro.
O ensinamento é ainda mais radical:
eu nunca estive separada dela.
Paz não é uma experiência que o mundo coloca em mim. É algo que já pertence à minha natureza, mas que pode ficar encoberto por uma mente que acredita estar incompleta.
Isso também me ajudou a compreender melhor o que determina a maneira como cada um de nós age no mundo.
Quando me percebo incompleta, naturalmente me relaciono com a vida tentando completar alguma coisa em mim.
Quero que pessoas, experiências, reconhecimento, dinheiro, prazer… e às vezes até a própria espiritualidade, preencham aquilo que acredito estar faltando.
A ação se torna uma forma de retirar.
Enquanto me sinto falta, encontro o mundo perguntando: “o que você pode me dar?”
Quando reconheço plenitude, começo a perguntar: “o que pode passar através de mim?”
Por isso não faz sentido dividir as pessoas simplesmente entre boas e más. Existe ignorância, existem diferentes histórias, diferentes graus de clareza…
Quem ainda está profundamente identificado com a própria falta tende a tentar extrair do mundo aquilo que acredita precisar para ficar bem. E, muitas vezes, quanto mais dor carrega, mais dor acaba espalhando.
O que transforma isso não é simplesmente força de vontade.
É purificação.
É uma mente que vai se tornando cada vez mais capaz de reconhecer aquilo que sempre esteve presente.
A nascente não aparece porque eu a criei. Ela aparece porque aquilo que a encobria começa a perder força.
E aqui mora uma armadilha na qual eu mesma quase caí:
Se tudo é um, se não sou a autora absoluta das ações e se não preciso obter nada do mundo… então posso simplesmente parar de me esforçar?
Não.
A liberdade que esse ensinamento aponta não é preguiça disfarçada de sabedoria.
Basta olhar para Arjuna.
Depois de receber todo o ensinamento da Bhagavad Gītā, ele não abandona o campo de batalha.
Ele age.
O que muda é o lugar de onde a ação acontece.
Não-apego ao resultado não significa falta de compromisso.
Não-agência não significa passividade.
Plenitude não significa ausência de ação.
Continuo trabalhando, criando, cuidando, estudando, construindo, oferecendo.
Mas posso começar a observar com mais honestidade:
O que em mim está pedindo esse resultado?
É uma sensação de falta tentando provar que sou alguém?
É a necessidade de ser vista, reconhecida, especial?
Ou essa ação pode nascer de um lugar mais livre, simplesmente porque existe algo que cabe a mim oferecer? “parar de buscar” não signifique parar de desejar, criar ou construir uma vida bonita.
Signifique apenas parar de exigir que todas essas coisas resolvam a sensação fundamental de que me falta alguma coisa.
E talvez o próprio título deste texto esteja errado.
Porque não se trata exatamente de virar fonte.
Trata-se de parar, aos poucos, de esquecer que já sou.
Essa reflexão nasceu de uma aula da turma de Aprofundamento da Escola Vishva Vidya, com o professor Jonas Masetti.

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